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Devolução internacional em moda e calçados: por que o custo é 3 vezes maior e o que as marcas estão fazendo sobre isso

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Tempo de leitura: 6 minutos

Uma devolução doméstica já tem custo. Uma devolução internacional tem custo, mais imposto, mais tempo e mais risco de perda de valor do produto. Portanto, para marcas de moda e calçados que exportam, a devolução não é um detalhe operacional. É uma variável que pode consumir a margem inteira de uma coleção.

De acordo com a Narvar, 49% dos consumidores verificam a política de devolução antes de finalizar uma compra. No e-commerce internacional de moda, essa verificação é ainda mais decisiva. Além disso, de acordo com a NRF, as devoluções custaram ao varejo americano 816 bilhões de dólares em 2022. Quando o produto precisa cruzar uma fronteira para voltar, esse número se multiplica.

Neste artigo, mostramos por que a devolução internacional custa até 3 vezes mais que a doméstica, o que acontece nos bastidores logísticos e o que marcas de moda e calçados estão fazendo de concreto para reduzir esse impacto na margem.

O custo real de uma devolução que cruza fronteira

Primeiro, é preciso entender que devolução internacional não é só frete de volta. Cada etapa do caminho reverso tem um custo associado. Segundo, muitos desses custos são invisíveis no momento da venda e só aparecem no fechamento de margem do mês.

De acordo com a Optoro, o custo médio de processar uma devolução doméstica nos Estados Unidos é de 33 dólares por item. No cenário internacional, esse custo sobe para entre 80 e 110 dólares, dependendo do país de origem e do tipo de produto. Por isso, a diferença não é marginal. É estrutural e previsível para quem conhece a operação.

Além disso, o tempo médio de processamento de uma devolução internacional é de 21 a 45 dias, contra 5 a 10 dias para devoluções domésticas (Metapack, 2023). Consequentemente, o estoque fica retido. A marca perde vendas que poderia fazer com aquele mesmo produto nesse intervalo.

O frete de retorno internacional

O frete de retorno não é o frete de envio ao contrário. Portanto, ele carrega custos adicionais que a maioria das marcas não prevê na precificação inicial. Primeiro, a etiqueta de retorno internacional precisa incluir informações alfandegárias corretas. Segundo, o produto precisa ser declarado como retorno comercial para evitar nova tributação na entrada no país de origem.

De acordo com a DHL Express, cerca de 15% das devoluções internacionais enfrentam algum tipo de retenção alfandegária na chegada ao país de origem. Sendo assim, o prazo se estende ainda mais. O produto pode levar semanas para ser liberado, processado e reintegrado ao estoque.

Os impostos pagos na ida nem sempre voltam

Quando uma marca exporta em DDP, Delivered Duty Paid, ela paga os impostos de importação no país de destino. Na devolução, esses impostos precisam ser recuperados via processo de drawback ou equivalente local. Por outro lado, esse processo pode levar meses. Em alguns mercados, o reembolso simplesmente não acontece.

De acordo com levantamento da Avalara sobre logística reversa cross-border (2023), 38% das marcas que operam com DDP relataram dificuldades para recuperar impostos pagos em devoluções. Portanto, o imposto vira custo definitivo da operação, não um adiantamento recuperável.

Por que moda e calçados têm o problema amplificado

Moda e calçados têm taxa de devolução estruturalmente mais alta que outros segmentos. De acordo com a Invesp, a taxa média de devolução em e-commerce de moda é de 30%, contra 8% em eletrônicos e 5% em livros. No cross-border, esse número pode chegar a 40%.

Por isso, o problema de margem em moda e calçados não é apenas o custo unitário da devolução. É o volume acumulado ao longo de uma coleção inteira. Contudo, há outro fator que amplifica ainda mais o impacto financeiro nesse setor específico.

O problema da grade de numeração

Calçados têm grades de numeração diferentes por mercado. Um 38 brasileiro não é um 38 europeu. Um 8 americano não é um 8 inglês. Dessa forma, consumidores que compram calçados internacionalmente têm taxa de devolução por tamanho errado significativamente mais alta do que em compras domésticas.

De acordo com a Narvar (2023), 42% das devoluções internacionais em calçados têm como motivo principal o tamanho incorreto. Portanto, o problema começa antes do envio, na experiência de compra, e nenhuma eficiência logística resolve um erro que aconteceu antes de o produto sair do armazém.

Sazonalidade e janela de devolução

Moda tem sazonalidade. Um produto enviado em novembro para o hemisfério norte pode ser devolvido em janeiro, depois das festas. Além disso, no cross-border, o prazo de entrega já consome parte da janela de devolução. Consequentemente, o produto chega ao consumidor com menos tempo disponível para ser testado antes de ser devolvido.

Sendo assim, marcas que não adaptam a janela de devolução ao contexto cross-border criam fricção desnecessária. O consumidor recebe o produto, não tem tempo suficiente para decidir e devolve dentro do prazo, mas fora da viabilidade operacional da marca.

O custo do estoque parado e a perda de valor

Uma devolução doméstica retorna ao centro de distribuição em poucos dias. O produto é reintegrado ao estoque e pode ser vendido novamente rapidamente. No cross-border, esse produto pode passar 30 a 60 dias em trânsito e em processo alfandegário antes de estar disponível.

Por outro lado, em moda e calçados, 30 dias fazem diferença real de receita. A coleção pode ter girado. O produto pode ter saído de linha. De acordo com a Optoro, produtos de moda que demoram mais de 30 dias para ser reintegrados ao estoque após devolução perdem em média 22% do valor de revenda.

Portanto, não é só o custo do retorno. É também a perda de valor do produto durante o tempo parado. Ainda, há o custo de armazenagem durante o trânsito e o custo de oportunidade do capital imobilizado naquele estoque que não pode ser vendido.

O custo oculto: o cliente que não volta

De acordo com a Narvar, 96% dos consumidores voltariam a comprar de uma marca se a experiência de devolução fosse positiva. Por outro lado, 69% dos consumidores não comprariam de uma marca novamente após uma experiência de devolução difícil.

No cross-border, a experiência de devolução é estruturalmente mais trabalhosa. O consumidor precisa preencher documentos alfandegários e aguardar semanas pela confirmação. Consequentemente, mesmo quando a devolução é concluída com sucesso, a experiência negativa compromete a recompra. O custo do cliente perdido raramente entra no cálculo de custo de devolução, mas deveria.

O que marcas de moda e calçados estão fazendo na prática

Algumas marcas identificaram o problema e mudaram a operação antes de escalar. De fato, as soluções mais efetivas não estão no processo de devolução em si. Estão em reduzir a necessidade de devolver antes que o produto seja enviado.

Ou seja, a logística reversa eficiente começa na experiência de compra, não no momento em que o cliente abre a caixa e decide que não quer ficar com o produto. Esse princípio vale para qualquer decisão de expansão internacional, como discutimos em profundidade no artigo sobre as 4 lições críticas de cross-border para heads de e-commerce em 2026.

Guias de medidas localizados por mercado

Marcas que publicam guias de medidas com equivalência por mercado reduzem a taxa de devolução por tamanho incorreto de forma mensurável. Além disso, guias com tabelas comparativas por país e referências visuais de modelagem têm performance melhor do que tabelas simples de conversão. De acordo com a Narvar, marcas que implementaram guias de medidas localizados reduziram devoluções por tamanho em até 25%.

Por isso, o investimento é pequeno comparado ao custo de uma devolução internacional. O conteúdo de produto resolve o problema antes do envio, antes do frete, antes de qualquer custo logístico adicional.

Política de troca em vez de devolução

Marcas que oferecem troca direta no mercado de destino, em vez de devolução ao país de origem, conseguem manter o cliente e o produto no mesmo mercado. Portanto, o frete de retorno internacional simplesmente não acontece.

Essa estratégia funciona melhor para marcas com parceiros locais ou hubs de distribuição no mercado de destino. Sendo assim, a troca vira logística doméstica, com custo e prazo domésticos, e o cliente sai satisfeito sem que a marca arque com os 80 a 110 dólares de uma devolução cross-border completa.

Hubs de retorno regionais

Marcas com volume maior estão usando hubs de retorno em mercados estratégicos. Por exemplo, um hub em Portugal serve como ponto de consolidação de devoluções da Europa. Um hub em Miami consolida devoluções das Américas.

Dessa forma, o produto não precisa cruzar o oceano de volta ao país de origem. Além disso, o hub pode reprocessar e reintegrar o produto ao estoque regional. Consequentemente, o tempo de reintegração cai de 45 dias para menos de 10, recuperando parte significativa do valor de revenda que seria perdido.

Como calcular o custo real da sua taxa de devolução cross-border

Muitas marcas calculam o custo de devolução como frete de retorno mais reembolso ao consumidor. Contudo, esse cálculo está incompleto e subestima o impacto real na margem do negócio.

O custo real inclui frete de retorno internacional, impostos não recuperados, custo de processamento e inspeção, perda de valor do produto por tempo parado e custo de oportunidade do estoque retido. Portanto, somar esses componentes muda completamente a análise de viabilidade de um mercado de exportação.

Por fim, de acordo com a Reverse Logistics Association, marcas que calculam e monitoram o custo completo de devolução cross-border conseguem identificar os mercados e os produtos com maior impacto negativo na margem. Sendo assim, ajustam a política de forma precisa antes que o problema consuma o lucro de toda uma coleção.

Conclusão

A devolução internacional não é inevitável no volume em que muitas marcas de moda e calçados enfrentam. Portanto, parte do custo pode ser eliminado antes do envio, com guias de produto localizados, política de troca no mercado de destino e estratégia de hub regional.

De fato, as marcas que estão vencendo no cross-border de moda não são necessariamente as que têm o frete mais barato. São as que entendem o custo total da operação, inclusive o custo de voltar.

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